.Medina – depois daquele churras.

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Era fim de dezembro de 2013 no Hawaii. Uma turma de amigos, surfistas e moradores fazia um churrasco meia-boca de despedida da temporada e tomava Corona não tão gelada no quintal da casa em Velzyland quando Gabriel Medina chegou com três amigos.

Pegou uma bebida, umas tiras de carne e ficou por ali jogando conversa fora com os também surfistas Yan Daberkow e Raoni Monteiro sobre a vitória de Mick Fanning. A chegada dele não foi um acontecimento. Ninguém pediu para tirar uma selfie. Era apenas um garoto prodígio entusiasmado por estar no North Shore. Entre uma picanha e outra lembramos de uma entrevista que eu havia feito com ele anos antes na Califórnia, sobre surfar Huntington Beach. Peguei o cel, mostrei o vídeo e ele caiu na gargalhada: “Pô, não mostra pra ninguém, eu  tava cheio de espinhas na cara, olha meu cabelo”, disse.  (Abaixo um trecho com audio péssimo no qual ele comenta a alegria de surfar junto com os ídolos, os melhores do mundo, como Kelly Slater)

Hoje, estava aqui revendo umas imagens da temporada de 2013 e 2014 e lembrei dessa noite. Lembrei que aquela caminhada do nosso churrasco até a casa da Rip Curl na qual ele estava hospedado, pode ter sido a última vez em que Gabriel andou tranquilo pelas ruas do North Shore durante um PipeMasters (no dia seguinte, durante um treino em Off-The-Wall ele fraturou o tornozelo e voltou direto para o Brasil), antes de fazer história e antes de ajudar a inflacionar o preço do açaí e da coxinha do food truck da Cris, que vende comida brasileira ali perto – o movimento por lá esse ano cresceu 40%.

Do ano daquela entrevista na Califórnia, na qual notei algo a mais naquele garoto pela primeira vez, até dezembro de 2014, não consigo nem listar a quantidade de vezes que sugeri aos meus editores um perfil do atleta. Foram  mais de 4 anos de NÃOs, um em seguida do outro nos mais diversos veículos não especializados e de massa, tentando gritar que tinha algo acontecendo com um paulista de Maresias.

Foram tantas tentativas de emplacar a história que a única forma que arrumei de falar do garoto foi na minha própria coluna na Folha de São Paulo, em 2012. À época, um destaque para ele  só foi aprovado quando disse que quem apostaria em Medina  seria Kelly Slater, em um curto ping-pong. Veja aqui. 

Sentada na areia em 19/12/2014 depois de ver uma multidão explodir na contagem regressiva do locutor oficial e de presenciar (como mídia independente, diga-se de passagem) o menino das espinhas tornar-se o primeiro brasileiro campeão mundial de surfe, os sentimentos eram confusos. Emoção pela vitória, porque sou apaixonada pelo esporte, mas também tristeza por não ter conseguido tirar essa história do gueto do surf antes (por lá era só uma questão de tempo, todos já sabiam, como bem me disse Occy nessa entrevista que publiquei na Trip no ano retrasado) ou por terem tirado de mim a chance de finalmente assinar a tão esperada manchete da vitória.

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Fiquei me sentindo um pouco aqueles caras que levantam o cartaz de “Eu Já Sabia” nos estádios de futebol. Dava até gosto de ver os colegas da mídia especializada confortáveis como nunca em uma sala de imprensa invadida por novatos da TV e dos jornais querendo entender o que era Pipeline, o que era Backdoor e suando para falar sobre um território que não era um gramado ou uma pista de F1 (foi uma trapalhada, mas vai ser ótimo para o mercado, diga-se).

Guardei uns minutos ali rindo sozinha e limpando os olhos cheios d’água e os  joelhos cheios de areia, tudo ao mesmo tempo,  enquanto o celular não parava de apitar. Contei 13 solicitações dos mais variados tipos de plataformas de comunicação desesperados por conteúdo sobre Gabriel. De emissoras de rádio à revistas de moda. Mesmo com a vitória ninguém sabia muito bem como narrar o acontecido, e a história do menino que ganhou o Brasil de forma meteórica. Mas não consegui contar o número de tuítes, SMS, recados no Whatsapp de gente que  acompanhava a cobertura aqui no site, no Facebook ou Twitter. E aquilo lavou a alma.

Àquela altura me dei ao luxo de recusar tudo e fiquei ali apenas observando a história ser escrita e imaginando o que seria dali em diante. De como o país receberia um novo ídolo em ano de 7 a 1, se ele ia descambar ou não rumo ao bi, de como o  mercado iria mudar, de como a mídia iria mudar e de como o Gabriel pisaria em Pipe em 2015.

É uma nova era para o surfe nacional e tudo será diferente. Só espero que a Cris não aumente o preço do açaí e a coxinha.