.Niemeyer – respect.

Há 30 anos eu sou vizinha do parque Ibirapuera. Desde que me conheço por gente fico embasbacada com as obras de Oscar Niemeyer, que na minha cabeça moram em meu jardim particular. Aprendi a andar de bicicleta na marquise. Por lá, ganhei uma cicatriz no joelho quando levei o maior tombo da minha vida tentando fazer uma manobra mais ousada de patins. Não poderia nem contar quantas horas da adolescencia passei vendo meninos zanzarem em seus skates por ali.

Em 1998 fui à Bienal da Antropofagia, naquele prédio imenso cheio de rampas sinuosas e, sem saber o motivo, chorei sozinha ao olhar pra tudo aquilo. Finalmente descobri a paixão pela arte (e o prédio era parte disso), um universo muito distante do mundo cartesiano e científico no qual fui criada. Até então, só me emocionavam as coisas vivas. O funcionamento de um coração, o nascimento de um animal, de uma flor.

Anos antes, quando criança, o local havia abrigado a Bienal do Livro, espaço onde adquiri meu primeiro exemplar literário e descobri que o mundo era cheio de histórias pra contar. Resolvi que também queria narrar algumas delas.

No dia em que meus pais se separaram, sem forças para caminhar, fiquei algumas horas sentada em uma das janelas redondas da Oca, de frente para o MAM. Começou a chover, apertou a chuva, choveu muito, mas lá, naquela pequena caverninha, parecia tudo bem. As vezes, quando quero pensar em alguma coisa importante, ainda volto para aquela janela.

Anos depois, com minha irmã arquiteta, fui a uma exposição lá dentro e falando sobre o quanto eu achava o arquiteto carioca um gênio, ela resmungou: “É, mas o conforto térmico é um lixo, olha o som aqui dentro, olha o calor”. Ela estava certa, mas nada mudou meu olhar.

Quando vejo os prédios neoclássicos (e suas estruturas corretas, egoístas e ridículas) que infestam a capital, eu vou até o parque e penso que a cidade ainda tem salvação. As obras de Niemeyer me arrancaram suspiros, me abraçaram, me ensinaram e me inspiram todos os dias, quando caminho entre elas pela manhã.

Respect, Oscar, respect.

 

As obras que ilustram esse post são do artista e amigo Filipe Jardim, que aliás, eu conheci sob um teto projetado por Niemeyer.

  • Felipe

    Lindo texto.