.UM PAPO COM: JOHN JOHN FLORENCE.

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Durante sua passagem pelo Brasil para o Oi Rio Pro, o havaiano John John Florence foi ao Maracanã, visitou o Cristo Redentor, atendeu uma legião de fãs que acamparam na porta de seu apartamento alugado na Barra da Tijuca e fez uma pausa na maratona de Game of Thrones para bater um papo com o Kakaos:

O que você sentiu quando Medina ganhou o título no seu quintal no ano passado?
O meu lado competitivo não ficou nada feliz. Eu queria ganhar. Mas ao mesmo tempo tudo aquilo que aconteceu com o Gabriel fez tanto barulho em relação ao surf no Brasil, que foi incrível. Eu nunca tinha visto uma energia daquelas em toda a minha vida, então de certa forma foi muito bom para levar o surf a um nível mais alto para essa nova geração. Mas a verdade é que o meu outro lado gritava o tempo todo: “droga! droga!”

Durante todos esses dias que você passou no Rio havia uma fila de pessoas na porta da sua casa. Os brasileiros gostam de você mesmo sendo uma das maiores ameaças aos nossos competidores. Você sabia disso?
Lá no PipeMasters eu sentia que vocês só queriam saber do Gabriel. Mas quando cheguei aqui foi uma loucura tão grande que não tem como negar esse sentimento. A praia estava tão lotada todos esses dias, as pessoas gritavam tanto que foi emocionante. Eu tive um programa na televisão aqui e nem sabia! Descobri ontem. Eu não tinha ideia de que tanta gente me conhecia.

Qual foi a sensação de surfar em frente a tanta gente?
Acho que o mesmo que os jogadores sentem nos estádios de futebol. Fui a um jogo do Flamengo esses dias no Maracanã e entendi que a emoção é parecida. Foi tãaaaaao legal! A cada onda que eu pegava dava para ouvir a torcida gritando e aquilo bate no peito. Mas pra mim nada ainda supera a sensação de surfar sozinho sem ninguém ao redor, quando não tenho que competir. Porém, de vez em quando, também é bom sentir o calor do público.

Tem gente que acha que o crescimento do esporte vai ser ruim, que esse show vai contra a essência do surf. Você concorda?
Não, isso depende unicamente de cada surfista. Hoje em dia temos muitas opções de patrocinadores, de entender de onde vem o dinheiro envolvido. Podemos escolher a que tipo de empresa queremos nos associar. O verdadeiro surfista, aquele que surfa apenas porque ama estar no mar vai continuar seguindo sua paixão, não importa que tamanho o evento ou o esporte tenham. Mas é claro que existem caras que vão escolher o contrário, caras que pensam que precisam ir surfar porque esse é o seu trabalho e pronto. Eu não sou esse cara.

Quem são esses caras?
As pessoas são muito diferentes no tour hoje. O esporte tem mudado tão rápido que acho que a maioria está escolhendo seu papel nesse circo agora enquanto conversamos.

Você é muito competitivo?
Muito, desde criança quando brincava entre meus irmãos. Eu sempre quero muuuuito ganhar. Frequento competições desde que me entendo por gente, mas não é sempre que fico realmente puto quando perco. As vezes eu olho o mar e só quero entrar lá e ter um bom momento. Na água tenho ficado cada vez mais competitivo, mas nas outras áreas da vida ainda sou tranquilo.

Qual a sua mais antiga memória relacionada ao surf? Não consigo lembrar. É como se eu já tivesse nascido sobre uma prancha. Tenho fotos que mostram minha mãe no mar comigo ainda bebê pegando onda. Eu não sei dizer o que havia na minha vida antes disso.

Em algum momento da infância a disciplina das comeptições foram um peso pra você?
Cresci em um lugar no qual a diversão era essa. Era legal competir porque um dia encontrava amigos surfistas da minha praia, depois tinha que ir para outra ilha, conhecer pessoas diferentes, eu gosto disso até hoje. Eu encontrava amigos de infância todo o final de semana em uma praia diferente, era uma bagunça.

A maioria dos profissionais já voltaram para a casa e você continua no Brasil. Quais os planos? Gosto de conhecer os lugares para os quais viajo quando surfo. Apesar de estar meio difícil sair na rua por aqui porque muita gente pede para tirar foto, eu já fui a um jogo de futebol, já fui à Copacabana, já conheci o Cristo Redentor. Estou turista.

Você nunca pensou em ser outra coisa na vida?
Não deu tempo. Eu cresci surfando e é isso que eu sei fazer. Eu nunca parei para me imaginar sendo outra coisa. O surf é minha principal paixão, mas eu também amo velejar e voar. Eu adoraria ter mais tempo para fazer outras coisas, mas com esse calendário de competições eu estou sempre viajando. Aí quando volto para casa sempre tem onda ali na frente, então… (risos)

Você se formou na escola?
Sim, mas não fui para a universidade. Gostaria de estudar algumas coisas por diversão. Talvez alguma coisa ligada a barcos e à navegação. Estou num momento barcos, barcos, barcos.

Você tem um?
Comprei um recentemente. Ele é um barco a vela, mas é bem rápido.

Você também adora fotografia. De onde vem essa paixão?
Está aí uma coisa que eu também gosto bastante. Adoraria aprender mais sobre fotografia e filmagem. Minha mãe sempre gostou de câmeras, de tirar fotos e tinha um laboratório de fotografia em casa. Ela me levava junto quando ia revelar os filmes. Estou sempre viajando por lugares tão legais que aproveito para fotografar.

O que você gosta de fotografar? Tudo que acontece ao meu redor. Eu uso filme e tenho também uma Leika digital. Acabo de comprar uma casa e também já montei meu próprio laboratório por lá. Quando eu volto de viagem relaxo fazendo scans, brincando com as diferentes formas de revelação etc… Eu tenho que ficar tão concentrado que consigo esquecer um pouco do surf quando estou ali.

Quem te inspira na fotografia? Sou fã do Sebastião Salgado, um brasileiro incrível. As fotos dele são incríveis e seu documentário é demais. No meio do surf eu admiro bastante do Daniel Russo e Todd Glaser.

Você mora sozinho agora? Moro com um dos meus irmãos e a minha mãe ficou morando com meu irmão mais novo. Continuo na mesma rua, não mudou quase nada.

Além das fotos, o que você gosta de fazer quando não está surfando? Sou muito agitado. Quando eu chego em casa e sento no sofá eu levanto em menos de dez minutos. Odeio televisão, não consigo ficar parado para isso e odeio video-games. A única coisa que consegue me deixar jogado no sofá é esse Game of Thrones. Também gosto de ouvir música.

Que tipo de banda?
A maioria é música antiga. Mas gosto de misturar com coisas mais recentes. Adoro Led Zeppelin, depois reggae, rap, Rolling Stones e algo de indie rock. Não tem uma lógica para o que escuto, gosto de música boa.

Você cresceu em um lugar muito simples e pequeno, o North Shore de Oahu. Nunca desejou morar em uma cidade grande?
Tenho pensado muito nisso. Talvez eu queira ter uma casa em alguma grande capital, acho essas cidades grandes incríveis. Se você perguntar a qualquer um dos meus amigos eles vão te dizer que eu gosto de ficar longe das pessoas, em lugares tranquilos. Mas o que eu descobri é que as cidades grandes tem tanta gente fazendo tantas coisas que ninguém presta muita atenção em você.

Mesmo agora que você é famoso?
As vezes é divertido, mas ainda estranho essa coisa das pessoas saberem quem eu sou. As vezes ninguém percebe a minha presença, mas basta uma pessoa pedir para tirar foto que dezenas das que estão ao redor também pedem. É aí que eu me lembro que elas podem saber quem eu sou num lugar bem distante da minha casa. Não imagino ser uma pessoa como o Gabriel, que aqui não pode nem atravessar a rua. Mas se bem que eu acho que ele gosta. (risos)

Sempre ouvimos falar muito sobre a sua mãe, mas não muito sobre o seu pai. Você cresceu afastado dele? Meus pais se separaram quando eu ainda era pequeno. Ele mora na costa leste e eu o vejo pouco porque estou sempre viajando, por isso não temos muito contato hoje. Mas eu e meus irmãos somos filhos do mesmo pai e nos dividíamos entre as casas da minha mãe e dele antigamente.

Descreva sua mãe em 3 palavras:
(risos) Ela é hiperativa, malvada e maravilhosa. Ela é durona e não tem nenhum filtro. Ela anda de skate o dia todo e é uma pessoa incrível.

Qual foi a primeira coisa que você comprou quando começou a ganhar muito dinheiro?
A verdade é que não gasto dinheiro com quase nada. Tenho uma vida simples e muitas das coisas que eu preciso são arranjadas pelos meus patrocinadores. Não tenho nem carro. Mas guardei dinheiro por um bom tempo para comprar minha casa e agora para o meu barco.

Qual a sensação de ser o provedor da família com tão pouca idade?
É um prazer enorme. Não me sinto pressionado a fazer isso porque tenho irmãos talentosos que hoje também tem bons patrocínios, então fica tudo leve.

Você já gritou por alguém como seus fãs gritam por você?
Eu cresci vendo o Kelly Slater ir surfar no Hawaii. E durante muito tempo eu ainda pensava: Meu Deus…é o Kelly Slater aqui na porta de casa, uau! Caras como ele eram mais meus herois do que ídolos, e desde meu primeiro ano no tour tive que deixar esse sentimento de lado e aprendi a querer vence-los. Mas talvez se eu visse alguém dos Stones meus olhos iam saltar.

Você não está namorando porque não quer ou porque seu estilo de vida não deixa?
A vida não deixa. Já tentei mas é muito complicado manter alguém feliz quando você tem esse ritmo de vida e está constantemente longe. É um ponto difícil que eu pretendo resolver um dia.

Qual seu talento secreto?
Eu sou ótimos com truques de cartas.

Comida favorita
Massa, com certeza.

O que ninguém sabe sobre você? Que eu sou realmente, realmente tímido. Só de pensar em ter que falar em frente a muita gente eu já começo a suar. Eu fico muito vermelho, todos começam a olhar pra mim e é terrível. Eu falo a coisa mais curta que vier a minha cabeça e tento escapar para não morrer.

Qual o seu maior sonho? Velejar ao redor do mundo com poucos amigos e parar em alguns lugares vazios para surfar de vez em quando.

Do que você tem mais medo na vida? Ondas grandes e tubarões. Eu vou até o mar, eu sei como sobreviver, mas continuo com medo das ondas grandes até hoje.

Como você se vê em 40 anos? Quero ter minha família, minha mulher, meus filhos e um barco maior.

Quem é melhor? Medina ou Filipinho? Eles são diferentes. O Filipinho é o melhor surfista de ondas menores que já vi na vida. Ele é muito rápido. Mas o Medina é um competidor destemido e focado. Quando ele quiser ganhar ele vai ganhar, e isso amedronta.

O que falta para você ganhar seu primeiro mundial?
Sinto que já posso ganhar, mas talvez precise ser ainda mais competitivo do que já sou. É preciso tempo, a minha hora vai chegar.